Academia Guineense das Ciências quer tornar-se mais visível

A presidente da recém-criada Academia Guineense das Ciências, Marisa Nicolai, doutorada em Química, revelou, em entrevista exclusiva ao Jornal Nô Pintcha, que a sua organização quer tornar-se mais visível, trazendo ao público resultados palpáveis de estudos realizados em diferentes áreas das ciências naturais e sociais. Eis na íntegra o teor da conversa.

Como é que surgiu a ideia da criação da Academia Guineense das Ciências e de que tipo de entidade se trata?

Foi um grupo informal de jovens que amadureceu esta ideia. Eu conheci o grupo em 2023, através da senhora Telma. Ela convidou-me para o integrar. Questionei-me dos objetivos e pretensões, depois trocamos impressões, mas nada oficializei.Entrei no grupo a colaborar e assim fomos avançando. Disponibilizei-me trabalhar nos estatutos com a ajuda de todos.

Em 2024 conseguimos legalizar a academia, demos sinal da sua existência e fiquei como sua presidente num quadro de rotatividade. Foi assim que iniciamos este percurso e dia 4 de setembro corrente, procedemos ao lançamento oficial da Academia Guineense das Ciências para que possamos ser conhecidos pela sociedade académica e pela sociedade civil, respetivamente.

Somos uma organização sem fins lucrativos. Pretendemos, no fundo, dar apoio no desenvolvimento do país. Queremos ser independentes e autossuficientes, criando parcerias e candidatarmos a projetos.

Essa academia está estruturada em várias ciências, nomeadamente naturais e sociais. Queremos abranger, de forma transversal, todos os pontos, caso da educação (a base para o desenvolvimento económico e social), da saúde, etc. Queremos ser abrangentes e ter vários subgrupos, cada um com as suas valências, com os seus percursos de vida, académico e profissional.

Podemos ajudar os novos subgrupos para melhorarem os seus trabalhos, os seus projetos para crescerem e podermos ter produtos finais que nos permitam apresentar resultados visíveis e comunicáveis ao público.

Desde a sua criação, em 2024, como é que evoluiu a academia, quais são as suas forças e parcerias?

Depois da criação da academia, passamos a nos reunir, a debater ideias e a projetar a nossa imagem. Os percalços que temos de momento é a autonomia financeira. Pensamos criar projetos autónomos que nos permitam apresentar resultados palpáveis e que sejam comunicados às sociedades académica e civil para conhecermos exatamente a nossa situação.

Com o primeiro encontro académico, realizado na semana passada, abrimos as portas à toda a gente para que saiba amplamente da nossa existência, dos nossos propósitos, convidando mais pessoas para aderir a nossa jovem organização.

A grande vantagem desse grupo é a nossa vontade de querer fazer e ao mesmo tempo de aprender fazer. Estamos abertos a essa aprendizagem. Entre nós, compreendemos que temos pontos de vista diferentes e podemos aprender um com o outro. Isso não é só com a presidente, mas cada um de nós tem a sua forma de ver e de compreender as coisas. Assim, podemos crescer juntos e chegar a um objetivo comum, que é de ajudar várias instituições, demonstrando a nossa firme colaboração.

A nossa intenção é trabalhar não só com entidades privadas, mas também públicas para captarmos parcerias, convidando pessoas a aderir ao nosso grupo para que possamos progredir.

Assim que criarmos o pensamento científico, esse deve ser divulgado, o que nos permitirá ser visível em termos de imagem. Um dos objetivos é termos a nossa própria revista científica, onde podemos publicar os nossos estudos.

Pretendemos estabelecer parcerias internas e externas e com elas conseguir financiamentos que nos permitam ter a autonomia. Somos uma estrutura privada que depende da obtenção de fundos para funcionar com alguma independência. O financiamento poderá vir das entidades guineenses e estrangeiras.

Para termos um financiamento externo, obviamente, temos que demonstrar o nosso trabalho. O encontro que acabamos de realizar na semana passada, acho que foi interessante para toda a gente. O evento nos inspirou alguma esperança e acho que podemos evoluir juntos.

Noutros países como Portugal, por exemplo, existem academias das ciências, mas obviamente diferentes desta que nós temos aqui. O objetivo cá é trazermos conhecimentos para ajudar na parte da educação. A estrutura de Portugal é diferente, porque tem uma estrutura de ensino público diferente, com características diferentes.

A Academia Guineense das Ciências sabe que a Guiné-Bissau tem uma estrutura de educação com muitos desafios, e nós estamos cá, exatamente, para podermos apoiar a nível pedagógico, transmissão de experiências na área de ensino para ajudar a melhorar a situação. Queremos ajudar as entidades que têm parcerias connosco para estruturar e divulgar os seus estudos, permitindo-nos receber críticas construtivas. Através de workshops e ações de formação, podemos oferecer, essencialmente, aos professores uma preparação com certificação.

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Como é que funciona a academia?

Funcionamos com uma estrutura simples. Temos presidente, vice-presidente, secretário-geral, tesoureiro e as subdivisões das ciências naturais e sociais. Inicialmente, tivemos muita afluência, mas com a nossa agenda apertada registamos algumas desistências. Vamos afinar tudo e nisto temos que nos formar internamente para termos melhor qualidade, fazer os contatos necessários, estabelecer parcerias de qualidade e abrir portas.

Falando de desafios de desenvolvimento, o que é que a academia pretende fazer?

Eu acho que é transversal a nível nacional. Há que se criar projetos, envolvendo entidades. É importante sentarmos e identificarmos, primeiro, os problemas e propor soluções para assim criarmos os projetos a curto e a longo prazo com resultados visíveis.

É necessário que os resultados sejam divulgados. Muita gente não sabe se existem os projetos. A Guiné-Bissau tem um ponto positivo, porque tem uma sociedade muito crítica, que se preocupa muito em saber. A maioria dos guineenses não conhece os projetos. É necessário mostrarmos os resultados, sejam positivos ou negativos. Servem de base e trampolim para a evolução noutras partes.

Além da falta de divulgação dos resultados dos estudos, há também uma outra questão que tem a ver com questões levantadas a nível teórico. No fundo falta a componente prática que é a divulgação dos dados. Trabalhamos no sentido de as soluções serem efetivas. Com a ciência podemos ter resultados mais consistentes para aquilo que são problemas que o país enfrenta atualmente.

Nesse primeiro encontro, fizemos o caso de convidar instituições nacionais vocacionadas na área de investigação no sentido de poderem dar as suas contribuições e mostrarmos, em conjunto, as nossas forças, para criarmos mais relação de confiança e ter parceria saudável.

Queremos consolidar a nossa base a nível interno, e esperamos que daqui a um ano tenhamos resultados palpáveis. Um dos nossos focos é passar a imagem de que a sociedade não depende unicamente daquilo que o poder público faz, nós também podemos contribuir e construir.

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Partindo dos seus propósitos, que perspetivas tem a Academia Guineense das Ciências?

Perspetivas. Nós vamo-nos construindo e centrarmos o essencial no estabelecimento de parcerias com diferentes entidades, sobretudo públicas. Neste momento, penso que a academia tem registado acontecimentos suficientes para ajudar, orientar e colaborar com projetos para trazer os resultados que possam contribuir diretamente na tomada de decisões importantes.

Em várias áreas podemos estabelecer essas parcerias e esses objetivos comuns. Neste momento, estamos a estabelecer contatos para podermos, no próximo encontro, mostrar os resultados de parcerias estabelecidas, quer com entidades públicas, quer com privadas.

Bacar Baldé

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