DRA-Gabu: Limitação orçamental e atraso na libertação de recursos constituem obstáculos

A agricultura, na região de Gabú, leste do país, é o pilar da economia local, embora tenha enfrentado desafios complexos que comprometem a subsistência da população.

A maioria dos agregados familiares (cerca de 87,8%) na região possui terras aráveis e pratica a agricultura de subsistência. A pecuária é uma atividade tradicional, especialmente praticada pelos fulas, etnia predominante na região.

As culturas de maior importância para a alimentação e economia incluem o arroz, o milho (sorgo e preto) e o amendoim (mancarra). A produção de caju também é bastante significativa na região, sendo o principal produto de exportação do país.

Em entrevista exclusiva ao Nô Pintcha, o diretor Regional da Agricultura, Mama Samba Candé, afirma que, apesar da sua importância, a agricultura na região de Gabu enfrenta vários desafios, motivados sobretudo pelas variações climáticas no Sahel, nomeadamente a diminuição das chuvas e o aumento das temperaturas.

Impacto da seca do Sahel

De acordo com o responsável da agricultura na Região de Gabú, as variações climáticas no Sahel têm um impacto direto no clima da Guiné-Bissau, particularmente na região leste, tornando-o mais quente e seco.

“As secas prolongadas e os padrões de chuva imprevisíveis afetam a produção agrícola da região de Gabu, que depende fortemente de água para as suas culturas de sequeiro”, sublinhou.

A região do Sahel, explica Mama Saamba Candé, é uma faixa de transição semiárida que se estende por toda a África, entre o deserto de Sahara ao norte e as savanas mais húmidas ao sul. “A Guiné-Bissau, embora não esteja diretamente no coração do Sahel, mas é influenciada pelas suas condições climáticas”.

Além do mais, a falta de chuvas e cheias repentinas e intensas têm sido apontadas pelos serviços regionais da agricultura como a causa de maus anos agrícolas na região, o que tem contribuído na redução da produtividade, aumentando o risco de insegurança alimentar e de desnutrição, especialmente nas crianças.

“A perda de colheitas e a degradação dos solos resultam também na perda de meios de subsistência para as comunidades rurais, aumentando a pobreza e, consequentemente, a fuga do campo para as áreas urbanas”, explicou o diretor regional.

Segundo Mama Samba Candé, a problemática da agricultura na região de Gabu é associada também à falta de acesso às tecnologias modernas de irrigação, assim do capital para investir em equipamentos e fertilizantes.

Previsão da campanha agrícula

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Fazendo uma análise técnica face às situações que afetam a produção e a produtividade agrícola na região, o diretor disse ser prematuro prever os resultados da campanha, devido as chuvas intensas que não têm permitido aos agricultores a dedicarem-se nas mondas e concentrar em outras atividades.

“Também, este ano, a chegada tardia dos insumos, devido à falta de um interlocutor na altura certa, nesse caso um ministério para disponibilizar sementes, adubos, fungicidas, afeta, e de que maneira, a produção.

Além do mais, a Direção Regional da Agricultura (DRA) não tem capacidade técnica, porque o número de exte sionistas ativos, e engenheiros agrônomos treinados são muito poucos, o que dificulta o cumprimento da sua missão.

Apoio aos agricultores

De acordo com as informações avançadas pelo diretor regional, em Gabu, os apoios aos agricultores para a presente campanha agrícola (2025) variam conforme os programas nacionais e de cooperação de parceiros internacionais.

Entre os apoios concedidos aos agricultores, o diretor destacou os insumos, nomeadamente sementes diversas, adubos, aconselhamento e assistência técnica para boas práticas agrícolas, manejo de culturas e conservação de solo, melhoria de pistas rurais, logística de transporte e armazenamento (armazéns, silos) com projetos ligados ao ministério.

Em termos de comercialização de produtos, a DRA apoia os agricultores através de programação de compra pública ou garantias de preço para culturas-chave como o arroz, milho, mandioca, castanha de caju, apoio na organização de cooperativas e parcerias para acesso aos mercados e programas de diversificação de culturas para reduzir a vulnerabilidade.

Em termos de Meteorologia, a DRA analisa, em parcerias com serviços meteorológicos locais, os dados de chuva, temperatura, humidade e ventos extremos, o que permite ter informações atempadas sobre o clima e também manter os agricultores informados para estarem mais prevenidos.

Relativamente aos dados de campo, a DRA, através dos seus técnicos, efetua visitas técnicas semanais/quinzenais, e produz boletins de extensão, cartas de campo com informações sobre pragas, doenças e vantagens/habilidades de manejo.

“Essas visitas seguem todo o ciclo de produção, desde a semeia, registros de áreas cultivadas, plantios emergentes, áreas colhidas, desenvolvimento das culturas, projeção de produtividade e rendimentos por cultura e por aldeia”, disse o diretor.

Estratégias de adaptação e mitigação

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De acordo com o diretor Regional da Agricultura, apesar das ameaças, diversas iniciativas e estratégias estão a ser implementadas para a promoção de agricultura na região, tornando-a mais resiliente.

Entre as estratégias adotadas destacam-se o uso otimizado da água, através de projetos financiados por organizações como o Fundo Global do Ambiente (GEF) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Esses projetos, disse o diretor, estão vocacionados na captação e armazenamento de águas pluviais durante a estação das chuvas para serem usadas na agricultura e pecuária durante a época de estiagem.

Apar disso, alertou, os serviços regionais de agricultura  podem vir a enfrentar desafios ligados às alterações climáticas, com uma abordagem integrada que combine adaptação climática, gestão de recursos, apoio técnico e incentivos econômicos.

Esta ação, segundo suas palavras, passa pela identificação e promoção de culturas e variedades mais resistentes à seca e calor (milho, arroz, sorgo, amendoim, mandioca, variedades/safras com maior tolerância); adequação de calendários de semeadura e rotação de culturas com base em previsões climáticas sazonais. Igualmente, a implementação de sistemas de manejo de água, incluindo micro-irrigação, captação de água de chuva e gestão de recursos hídricos; melhoria da gestão de pastagens e forragens para o setor pecuário e o fortalecimento da agroecologia e do manejo integrado de pragas para reduzir dependência de pesticidas.

Por outro lado, o diretor regional sublinhou que a situação prevalecente na região demonstra a necessidade urgente de integrar a resiliência climática no planeamento e desenvolvimento sustentável do país, assim como a  estabilidade política e os apoios a um clima empresarial favorável para que o país possa enfrentar, de forma mais robusta, os desafios impostos pelas mudanças climáticas. 

Segurança alimentar

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De acordo com Mama Samba Candé, a DRA encara os projetos de segurança alimentar, promovidos pelas agências das Nações Unidas (PAM e FAO), como fatores muito importantes na melhoria da dieta alimentar da população.

Disse que a integração e coordenação das ajudas pelas agências de desenvolvimento rural devem estar alinhados com os objetivos, atividades e planos locais (agropecuária, água, saúde animal, extensão) para evitar duplicação e desperdício de recursos.

Foi tida em conta, segundo ele, o foco nas necessidades locais, específicas de Gabú (culturas-chave, disponibilidade de água, saúde animal, cadeias de valor) e adaptar ações globais às realidades regionais. “Foram envolvidas comunidades, cooperativas e autoridades locais no desenho, implementação e monitoramento”.

Informou que foi criado um comité de coordenação com representantes da DRA, agências da ONU, ministérios setoriais, autoridades locais e organizações da sociedade civil, estabelecendo procedimentos de comunicação, reuniões regulares e um fluxo claro de dados, um comité de seguimento e avaliação dos relatórios.

Reativar culturas de renda

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O diretor Regional da Agricultura considerou de importante a retoma da produção das culturas de renda, nomeadamente mandioca, batata-doce, abóbora, gergelim, de forma planejada, com base em avaliações de mercado, viabilidade agronômica e capacidades locais.

Disse que tem havido queda em alguns aspetos como os preços pouco estáveis, custos de insumos elevados ou dificuldade de acesso ao crédito, a falta de assistência técnica adequada, problemas de armazenamento/logística e perdas pós-colheita. “Outro aspeto que tem condicionado a produção dessas culturas são os mercados com demanda instável ou canais de venda limitados”, sublinhou.

Principais dificuldades

Falando das dificuldades institucionais da Direção Regional da Agricultura de Gabú, o diretor apontou várias, entre as quais, a limitação orçamental e de financiamento, dependência de transferências sazonais, atrasos na liberação de recursos; dificuldade para sustentar ações de longo prazo.

Outrossim, o processo de aquisição pública e compra de insumos com procedimentos lentos, a burocracia, risco de atrasos na entrega, contribuam na má campanha agrícola.

Djuldé Djaló

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