A mandioca, um tubérculo versátil e resistente, desempenha um papel fundamental na geração de renda para agricultores e na segurança alimentar das famílias, especialmente nos países em desenvolvimento, como a Guiné-Bissau.
O jornal de Nô Pintcha auscultou alguns agricultores nas regiões leste da Guiné-Bissau (Bafatá e Gabu) e constatou que, no passado, essas áreas eram tidas como as mais dedicadas à produção de mandioca em grande escala.
De acordo com as informações recolhidas junto dos agricultores locais, os excedentes da produção eram vendidos para os comerciantes vindos dos países vizinhos, como Senegal e Gambia, que vinham com camiões para adquirir mandioca, o que a tornava um produto estratégico e de muita procura, depois de mancara. Essa transação comercial constituía fonte de geração de renda e sustento familiar.
Aliás, a mandioca é muito mais do que um simples alimento. É um pilar económico e nutricional que capacita os agricultores, oferece estabilidade financeira e garante a subsistência de muitas famílias.
Mas, nos últimos tempos, a sua produção baixou-se consideravelmente nessas regiões, devido, em parte, à preferência dos agricultores, que dedicam mais atenção à cultura de caju, em detrimento de mandioca e mancara.
Essa queda de produção da mandioca colocou os lavradores da zona em situação de fragilidade económica e aumentou os riscos de insegurança alimentar das suas famílias.
Isto porque a mandioca pode ser colhida durante um longo período, o que oferece uma fonte de renda mais estável e contínua para as famílias, conferindo-lhe estatuto de uma cultura estratégica, cujas raízes são ricas em carboidratos, que são uma fonte de energia vital.
A capacidade de armazenar a mandioca no solo por um longo tempo, mesmo após o ponto de maturidade, funciona como uma “poupança” alimentar. Igualmente, em tempos de escassez ou de colheitas ruins de outras culturas, ela pode ser colhida e consumida, garantindo que as famílias não passem fome.
Além disso, a mandioca não se limita só ao consumo humano, pois as folhas, por exemplo, são ricas em proteínas e vitaminas, e consumidas por todas as partes, contribuindo na dieta regular das famílias.
Vantagens da mandioca
De acordo com nutricionistas e conhecedores de variedades de alimentos, a mandioca oferece múltiplas oportunidades de renda para os agricultores. O simples fato de ser uma cultura de baixo custo de produção, que se adapta aos diferentes tipos de solo e condições climáticas, já a torna uma opção viável para os pequenos produtores.
Além disso, pode ser vendida de diversas formas, o que aumenta o leque de possibilidades, nomeadamente venda in nature das raízes frescas diretamente nos mercados locais. A sua transformação em produtos como a farinha e em seca gera um valor agregado, permitindo que os agricultores obtenham um lucro maior.
O processamento pode ser feito em pequena escala, dentro das próprias comunidades, o que fortalece a economia local. E mais, ela é uma matéria-prima importante para indústrias de alimentos, cosméticos, têxtil e até mesmo para produção de biocombustíveis, o que cria um mercado de larga escala para os produtores.
Relançar a cultura no país

Informações de documentos de políticas e estratégias nacionais preveem que relançar a produção de mandioca na Guiné-Bissau é um plano crucial para reforçar a segurança alimentar e impulsionar a economia local.
Isto porque ela é uma cultura resiliente e com grande potencial, capaz de ser uma alternativa viável ao arroz, que nem sempre é produzido em quantidade suficiente para suprir às necessidades do país.
Com efeito, várias estratégias podem ser implementadas, com foco no apoio aos agricultores, através de criação de condições para o aumento da produção e produtividade. Isto é, fornecer suporte direto aos pequenos produtores, sementes melhoradas, aconselhamento técnico, facilitação no acesso a pequenos créditos, melhoramento de infraestruturas e comercialização de produtos, tais como vias de acesso, armazenamento, processamento, promoção da política agrícola e mobilização de parcerias.
A combinação dessas estratégias permite não só realçar a produção, mas também modernizar e fortalece-la na Guiné-Bissau como de outrora, contribuindo para a segurança alimentar e o desenvolvimento económico do país, reduzindo a depender só de um único produto de exportação que é a castanha de caju.
Breve história
Segundo informações disponíveis, a mandioca, um dos alimentos mais importantes do mundo, tem a sua origem na América do Sul. Cultivada há milhares de anos pelos povos indígenas do que é hoje o Brasil, a mandioca também (conhecida como aipim ou macaxeira) foi domesticada e se tornou um alimento básico para essas populações.
A planta é valorizada pela sua resistência a secas, solos de baixa fertilidade e pragas, além das suas raízes serem ricas em amido.
A chegada da mandioca em África, especialmente na África Ocidental, está diretamente ligada ao período do comércio transatlântico. Na altura, os comerciantes portugueses traziam esse produto do Brasil, no século XVI.
Inicialmente, a planta foi introduzida nas colónias portuguesas ao longo da costa africana. A partir de postos comerciais, como o da foz do Rio Congo e outros na costa da Alta Guiné, ela começou por espalhar-se por todo o continente.
A mandioca não se tonou um alimento básico de imediato na dieta africana, sendo que no começo era vista como uma cultura de reserva para períodos de fome, devido à sua capacidade de crescer em condições difíceis e fornecer uma fonte confiável de alimento quando outras culturas tradicionais (como o inhame e o milho) falhavam.
Ao longo dos séculos, a mandioca se adaptou e se integrou profundamente à agricultura e à culinária africana. Hoje, a África é a maior produtora mundial de mandioca, com a Nigéria, sendo o principal produtor.
Djuldé Djaló
