A situação da fábrica de tijolos de Bafatá é um dos exemplos mais citados quando se fala do declínio do parque industrial da Guiné-Bissau e da falta de continuidade de projetos estruturantes no país.
Bafatá, sendo a segunda maior cidade da Guiné-Bissau e historicamente um centro comercial agrícola, possuía uma unidade de produção de materiais de construção, que era estratégica para a região leste, neste caso, a cerâmica instalada nos anos 1978-79 e inaugurada em 1982 pelo então Presidente da República, General João Bernardo Vieira (Nino).
A reportagem do Nô Pintcha, que esteve no último fim-de-semana na região de Bafatá, abordou um dos ex-funcionário da fábrica, Januário Robna, que esteve desde as primeiras horas da construção daquela unidade fabril, feita pela Empresa CUP. Ele foi o primeiro a escavar barro para efeito de sondagem da qualidade.
De acordo com Januário Robna, a fábrica de tijolos empregava mais de 200 funcionários, entre os quais 14 mulheres que sustentavam muitas famílias. Mas esses funcionários estão atualmente espalhados em diferentes cantos do país, sendo que alguns deles já faleceram.
Januário lembra que foi premiado naquela fábrica com carta de condução e foi operador de máquinas, tendo trabalhado até à sua paralisação, em 1997.
Disse que em 2001, a cerâmica foi privatizada e a sua gestão assumida por Abel Incada desde 2010, contando então com 47 funcionários que descontavam a providência social.
Mas, após o falecimento de Incada em 2014, a gestão da mesma ficou ao cargo do seu filho até 2017, altura em que a fábrica voltou a paralisar até à data presente, deixando funcionários com salários atrasados e sem indeminização até agora, conforme informou Januário Robna.
Segundo este ex-funcionário, muitos equipamentos da fábrica foram retirados e, atualmente, as instalações da mesma estão sendo asseguradas por pessoas colocadas pelo BAO (Banco da África Ocidental).
Apelo ao Governo

Devido à importância económica que esta unidade fabril representa para a região e o país em geral, Januário Robna exorta o Governo no sentido de procurar soluções para a sua reabilitação. Pois, o funcionamento dessa fábrica, segundo Robna, além de empregar grande mão de obra, ajudará muito no processo de construção de habitações que hoje é muito dinâmico na Guiné-Bissau.
Januário disse que em termos de matérias-primas (barros e argila), estas existem em abundância e que podem sustentar o funcionamento da fábrica durante 50 anos, razão pela qual, há toda a necessidade para sua reativação.
Igualmente, pede ao Governo para procurar forma de pagar os atrasados salariais e/ou subsídios dos antigos funcionários da fábrica, apesar de muitos já terem falecido, mas outros ainda estão de vida.
Estado atual e contexto do encerramento
A fábrica de tijolos foi concebida para aproveitar o barro de alta qualidade abundante nas margens do Rio Geba. No seu período de funcionamento, ela era fundamental por porque reduzia a necessidade de importar cimento e outros materiais de construção para infraestruturas locais.
Era também uma das poucas fontes de emprego industrial fora da capital Bissau, ajudando a fixar a população jovem na região e contribuir no sustento de muitas famílias.
O funcionamento dessa unidade fabril era importante e ajudava, de que maneira, não só no emprego juvenil como também na construção de habitações consistentes para a população da região e do país, devido à qualidade dos tijolos produzidos.
Instabilidade política e degradação de maquinarias
Tal como muitas outras unidades fabris como a fábrica de sumos de Bolama ou as unidades de descasque de arroz, a fábrica de tijolos de Bafatá sucumbiu a uma combinação de fatores. O primeiro fator tem a ver com a instabilidade política motivado pelos sucessivos golpes de Estado e conflitos civis, especialmente a guerra de 7 de junho de 1998-1999, que interromperam as linhas de financiamento e manutenção.
Degradação de maquinarias, devido a falta de peças sobressalentes e de técnicos especializados levou a paralisação progressiva das máquinas. Outro fator terá a ver com o custo elevado de energia, uma vez que a produção de cerâmica exige fornos de alta temperatura. Sem uma rede elétrica fiável e com o custo elevado de combustível para geradores, a operação tornou-se economicamente inviável.
Fábrica em ruínas

Atualmente, a fábrica encontra-se em estado de abandono total. O mato cresceu em volta das instalações e grande parte dos equipamentos foi vandalizado ou corroído pelo tempo.
Assim, devido a inoperacionalidade da fábrica, a população local voltou a depender da produção manual de tijolos de adobe (barro seco ao sol), que são menos resistentes que os tijolos cozidos industrialmente.
Projeto de reabilitação
Ao longo da última década, vários governos e parceiros internacionais mencionaram a intenção de reativar a cerâmica de Bafatá. Mas esses planos raramente saem do papel devido à falta de investimento privado e às deficiências na infraestrutura elétrica da região.
Impacto social

O fecho da fábrica afetou, de que maneira, a imagem outrora da cidade de Bafatá que projeta em certas áreas, apesar do seu dinamismo comercial. A falta de indústrias para a transformação da matéria-prima local, neste caso o barro, obriga a região a importar materiais que ela mesma tem capacidade de produzir.
Outro impacto a destacar com a paralisação da fábrica de tijolos de Bafatá tem a ver com desemprego de importante mão-de-obra local, particularmente dos jovens que poderiam fixar-se na sua cidade sem recurso à emigração.
À semelhança da fábrica de tijolos, também o Projeto de Algodão de Bafatá paralisou-se, mas este pouco diferente, pois, está ligado à produção de algodão que também foi banido no país.
Mas sobre o Projeto de Algodão, voltaremos com mais detalhes na próxima edição, pois, existem várias outras unidades fabris e/ou empresas públicas instaladas em diferentes regiões da Guiné-Bissau que já deixaram de funcionar.
Djuldé Djaló
