As escolas públicas do Setor de Bula enfrentam crise profunda, uma situação que pode comprometer seriamente o futuro da nova geração, caso não forem tomadas medidas corretivas urgente. Aliás, o facto tem, sistematicamente, deixado fora do sistema um número considerável de crianças.
Nos últimos anos, o acesso ao ensino pré-escolar e primeiro ciclo é limitado, devido, primeiro, à insuficiência de professores e falta de carteiras, isso para não falar de algumas escolas que não completam o ciclo do ensino primário, o que tem, em parte, contribuído para o abandono escolar.
A carência é enorme, desde a insuficiência de professores e de salas de aulas, bem como falta de carteiras, material didático, agravada com a degradação de infraestruturas escolares. Além dessa conjuntura, maioria das escolas no setor não tem água, o que dificulta ainda mais o normal funcionamento das aulas.
A carência de professores, segundo relatos de algumas pessoas, deve-se à falta de incentivo e a não colocação de novos ingressos, situação que tem deixado muitas disciplinas sem docentes.
Outra realidade preocupante tem a ver, como já foi referenciada, a falta de carteiras. Há turmas que funcionam apenas com duas ou cinco carteiras, o que faz com que os alunos sejam agrupados à volta de uma única mesa para assistir aulas. O mais caricato é que eles ficam de pé quatro horas de tempo, o que não é aconselhável.
De acordo com as informações apuradas pelo repórter do Nô Pintcha, no ano letivo findo essas escolas não conseguiram concluir os exames, porque não é salutar fazer prova final naquelas condições.
Um outro desafio que o setor de educação enfrenta naquela zona tem a ver com a colheita da castanha de caju, que tem provocado o abandono temporário até definitivo dos alunos. Além da campanha de caju, a participação em rituais tradicionais de circuncisão (fanado) também afeta um número significativo de crianças, porque mesmo não querendo abandonar, as circunstâncias as levam a ceder.
No que se refere à falta de materiais didáticos, os professores e as direções das escolas recorrem à internet para fazer pesquisas dos conteúdos a lecionar. Na ausência de coordenação, são os próprios professores que fazem a planificação de aulas, porque, praticamente, o Ministério da Educação não dispõem de manuais.
Falta de condições técnicas

O inspector Setorial da Educação de Bula, Domingos Cabral, disse que as aulas ainda não se iniciaram naquela zona nortenha, por falta de condições técnicas, um sinal forte que pode comprometer o calendário escolar.
Segundo sua explicação, tudo indica que vai ser difícil iniciar aulas ainda neste mês de outubro, porque nem horários foram distribuídos aos professores, e há escolas ainda que estão em matrícula. “De acordo com as informações que tive, em todo o setor, só uma escola que conseguiu entregar horários a tempo”.
Lembrou que no ano passado, havia turmas que funcionaram com professores em falta, uma situação que pode agravar ainda mais neste ano letivo, porque o grosso número de professores emigraram para Portugal.
Domingos Cabral declarou que o setor tem 22 escolas públicas, mas todas elas funcionam a meio gás, devido à falta de professores, materiais didáticos e carteiras. “No ano passado, houve turma de 12 alunos que apenas tinha duas carteiras. Para atenuar a situação, tivemos que retirar algumas mesas no serviço da inspeção para colocar à disposição desses alunos”.
Por outro lado, disse que a falta de carteiras limita a inscrição de alunos nas escolas. Por exemplo, uma escola com capacidade de mil alunos é obrigada a inscrever metade ou menos de que isso. Portanto, isso acaba também por deixar muitas crianças fora do sistema.
Aquele responsável confirmou que a Escola 25 de Maio, em Bula, não conseguiu fazer o último exame por falta de carteiras, o que não lhe contentou enquanto autoridade, mas não tem outra alternativa, porque o justificativo da escola é irrefutável.
No que se refere às infraestruturas escolares, Domingos Cabral disse que solicitaram ao Ministério da Educação a necessidade urgente de reabilitar quatro escolas antes do fim do ano lectivo 2025/2026, mas não houve resposta, o que significa que essas escolas vão continuar com as mesmas dificuldades de funcionamento no presente ano escolar.
“Até parece uma brincadeira. De seis em seis meses, o ministério solicita as direções regionais a entregar lista de necessidades, mas nunca resolve”, lamentou.
Entretanto, Domingos Cabral criticou o sistema de distribuição de manuais. Segundo sua explicação, numa escola só três ou quatro alunos beneficiam e os restantes ficam de fora. “Portanto essa má repartição de materiais também reflete no processo de aprendizagem de crianças.
Escolas públicas

O presidente do Conselho Setorial da Juventude, Inácio Bacurim, disse que os jovens de Bula estão a pagar o preço da falta de investimento na educação, sublinhando que o setor tem um único liceu, sem capacidade para absorver todos os alunos que saem do segundo ciclo.
No ponto de vista desse jovem, o problema da educação é grave nessa zona, porque muitos jovens ficam sem oportunidade de continuar os estudos.
O facto é ainda mais crítico, porque a maioria das escolas do setor não oferece o ciclo completo do ensino primário, o que significa que os alunos que conseguem chegar ao liceu, muitas vezes, não têm base sólida para continuar.
Segundo explicou Inácio Bacurim, o Setor de Bula está em crescimento, pelo que precisa de escolas e professores para acompanhar essa dinâmica. “Por isso, enquanto representante da juventude, gostaria de apelar à intervenção do governo o mais rápido possível, para pôr cobro a situação.
Para ele, se o executivo não estiver em condições de fornecer carteiras, que, pelo manos, ajude as escolas com madeira e de lá cada uma arranja forma de construir.
O presidente do Conselho Setorial da Juventude aponta como saída a devolução dos 50 por cento das receitas das escolas por parte do Ministério da Educação. “Se o governo devolver metade do que tira, dá para comprar carteiras e materiais didáticos”.
Delinquência juvenil

O presidente do Conselho Setorial, Inácio Bacurim, manifesta-se preocupado com o aumento da delinquência juvenil. Nos últimos anos, segundo suas palavras, nota-se desvio das normas comportamentais por parte de alguns jovens.
Disse que atualmente são frequentes as práticas excessivas de roubo, assalto à mão armada, consumo de drogas, álcool e até mesmo homicídio, situação que considerou triste e lamentável.
Na sua opinião, essa prática, muitas vezes, começa com furto de pequenas somas em dinheiro no círculo familiar, e a partir daí começam a ganhar coragem de experimentar lá fora.
Além desses fatores, Bacurim aponta pobreza, falta de emprego, centros de formação e desigualdade social como fatores que induzem às más práticas.
Na sua opinião, o grande culpado dessa situação é o próprio Estado, que nunca pensou numa política de emprego e de formação de jovens, sobretudo no interior do país.
Alfredo Saminanco