Região de Bafatá apresenta grande défice de professores

Nos últimos anos, a Região de Bafatá apresenta grande défice de professores, situação que deixa um número considerável de crianças fora do sistema, além de insuficiência de infraestruturas escolares e carteiras.

Esta realidade coloca a região numa situação bastante preocupante, cuja solução torna-se cada vez mais difícil, pelo que o governo, através do Ministério da Educação, deve pensar numa política de retenção de professores.

A atual conjuntura já começa a afetar diretamente a qualidade do ensino público e a aprendizagem dos alunos. As recorrentes greves e a instabilidade política também são fatores que estão a contribuir negativamente no progresso do ensino tanto nessa região, assim como no país em geral.

Nessa zona, muitas crianças não vão à escola, aliás, alguns pais preferem que os filhos aprendam profissões liberais em detrimento da escola.

A Região de Bafatá, composta por seis sectores, conta com 214 escolas públicas, além de privadas e comunitárias.

Atualmente, o número dos professores reduziu para 1008, contra 1600 que o Ministério da Educação colocava no passado, facto que tem constituído grande preocupação para a Direção Regional da Educação.  

 Escolas com dificuldades

O inspetor coordenador da educação da Região de Bafatá, Adama Seidi, disse que o ano lectivo 2025/2026 está a funcionar a meio gás, devido a vários fatores, nomeadamente a falta de professores, materiais didáticos, carteiras, assim como a insuficiências de infraestruturas escolares.

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Dada a esta situação, segundo explicou, todas as escolas da região estão com falta de professores, principalmente as do terceiro ciclo, que estão a funcionar com grande dificuldade. “Perante esta realidade não se pode considerar o ano lectivo de positivo”.

Além disso, de acordo com Adama Seidi, as escolas do primeiro ciclo, nas aldeias, estão também com carências de professores. “Por exemplo, há escolas que funcionam de 1ª a 4ª classe apenas com um professor.

Mediante esta situação, acrescenta o inspetor, é difícil falar de um ensino de qualidade na região, por falta de professores e condições de trabalho.

Revelou que a região tem por volta de 365 professores que precisam de ser capacitados para poderem aprimorar as ferramentas educativas.

“De facto presenciei aulas de alguns professores, e registei grandes fraquezas relacionadas ao desconhecimento por completo dos métodos do ensino e da própria pedagogia”, sublinhou o inspetor.

No seu entendimento, esses docentes precisam seriamente de apoio do Ministério da Educação para ultrapassar suas limitações. “Um professor que não domina as técnicas de elaboração de plano de aulas, não se pode esperar nada de bom ou de aproveitável naquela aula, porque no processo de ensino aprendizagem não se improvisa, mas tudo se planeia”.

Adama Seidi disse que o país tem pecado nos últimos tempos no que se refere à formação de professores, porque dantes na Escola de Formação Tchico Té os estudantes eram submetidos aulas práticas, mas atualmente isso não funciona, o que os obriga a sair com dificuldades enormes.

O atraso na colocação dos professores, na ótica do inspector, tem também refletido, e de que maneira, no processo de aprendizagem de alunos, situação que deve ser corrigido.

Um outro fator que está a contribuir no retrocesso do ensino na zona, segundo a explicação desse responsável, tem a ver com falta de materiais didáticos, principalmente no ensino básico.

Para um aluno assimilar bem a matéria, defende o inspetor, é preciso ter livros para dominar a leitura e escrita, lembrando  que até ao momento a Direção Regional da Educação não beneficiou de materiais escolares.

Crianças fora do sistema

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O inspetor Adama Seidi disse que a Região de Bafatá apresenta indicadores muito alarmantes, no que tem a ver com as crianças fora do sistema do ensino, embora não tenha avançado os dados.

Segundo sua explicação, os populares da Região de Bafatá valorizam mais o ensino corânico do que ensino oficial/formal, uma situação que os intervenientes do setor da educação devem encarar com a seriedade.

No entendimento da população, o ensino corânico tem mais vantagem, porque oferece resultados a curto prazo. “O objetivo de estudo corânico é para ser “sortilégio”, e hoje, maioria dessas pessoas são bem-sucedidas na sociedade”.

Informou que na maioria de aldeias da região são pessoas que estudaram alcorão que sustentam famílias, e têm bens que um funcionário público não tem, portanto, esta situação acaba por influenciar outras pessoas a seguir o mesmo caminho. 

Deu exemplo da aldeia de Tendinto, que merecia ter escola de primeiro a terceiro ciclo, mas infelizmente não foi o caso, porque a comunidade dá mais importância ao ensino corânico. 

Para isso, o inspector propõe que seja desencadeada uma campanha de sensibilização junto dessas comunidades e nos órgãos de comunicação social.

Além da situação de crianças fora do sistema, de acordo com Adama Seidi, há um outro problema de abandono escolar, que é marcado por fatores como a campanha de comercialização da castanha de caju, casamento precoce, circuncisão e a falta de incentivo às comunidades.

O inspetor lembrou que, num passado recente, mais de 1500 crianças em idade escolar foram levadas às  barracas de fanado, em pleno período de funcionamento das aulas, o que pode ter reflexos no processo de aprendizagem.

Adama Seidi informou que a Região de Bafatá tem registado, ao longo dos últimos anos, saídas bruscas de crianças das escolas, mesmo com os esforços desenvolvidos pelas autoridades e parceiros, no sentido de sensibilizar as comunidades para que não retirem os filhos da escola.

Disse que o abandono escolar tornou-se um dilema não apenas para o governo, mas também para a sociedade em geral, porque trata-se de um fenómeno multifacetado, cujas causas são diversas e interligadas.

Entre os fatores mais recorrentes que contribuam para a sua persistência destacam-se a família, a tradição, o sistema educativo e o próprio papel desempenhado pelo aluno no processo de aprendizagem.

No seu entender, a família é, entre outras, a principal responsáveis pelo abandono escolar de crianças, devido à falta de acompanhamento adequado por parte dos pais e encarregados de educação.

Além disso, acrescenta Adama Seidi, durante o período da campanha de comercialização da castanha de caju, é comum ver os pais a interromperem o processo educativo dos filhos, priorizando atividades económicas, com o objetivo de garantir a sustentabilidade da família.

Alfredo Saminanco

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