Sistema do ensino em risco de colapso

As escolas públicas da capital perderam quase 70 por cento de alunos a favor das escolas privadas, devido às greves decretadas pela União Nacional de Trabalhadores da Guiné (UNTG).

Essa situação está afetar negativamente o setor do ensino nacional e tem provocada a fraca produtividade de professores quer a nível das escolas públicas, assim como nas privadas.

Em resultado disso, as direções das escolas são obrigadas a juntar três ou mais turmas numa só sala para poder funcionar como manda a pedagogia, porque se não seria difícil lecionar uma turma com dois ou três alunos.

Em algumas escolas visitadas pelo repórter do Nô Pintcha, maioria de salas de aulas estão encerradas e outras cedidas a algumas escolas de formação.

Segundo o que constatamos durante esta reportagem é que esta situação de greve, para além de contribuir na fraca produtividade de professores, deixou vários docentes sem horários.

E no que diz respeito ao aproveitamento de alunos quase é nulo, porque um professor para dar aulas precisa no mínimo de 25 alunos, o que não é o caso nessas escolas públicas, enquanto nas privadas a situação é outra. Ali nota-se a superlotação de alunos nas salas de aula, o que coloca o ensino guineense em risco e se não forem tomadas medidas urgentes, o sistema educativo pode colapsar.

Queba Seide, professor na Escola Justado Vieira, no Bairro de Ajuda, reconheceu que os pais e encarregados de educação perderam confiança das escolas públicas e como alternativa preferem matricular seus educandos no ensino privado.

Por outro lado, confirmou que na escola onde leciona são obrigados a juntar três ou cinco turmas numa só para poder trabalhar, porque se não for assim vai ser difícil fazer funcionar as aulas nessas escolas. Aliás, mesmo com esta estratégia deparam-se com insuficiência de alunos dentro de salas de aula.

Exortou que aquilo que se está a praticar neste momento pedagogicamente é um método deficitário, embora seja “ a única saída” encontrada para manter as escolas públicas a funcionar.

“Para tirar o setor de educação nessa situação, o governo deve recuar da sua posição inicial e voltar a sentar à mesa de negociações com os sindicatos, porque aquilo que está acontecer é grave. Por isso, é urgente ultrapassá-la”, sublinhou.

Avisou, por outro lado, que se o governo não intervier para resolver a situação de greves nas escolas públicas, daqui há alguns anos o ensino guineense entrará em colapso total, podendo até minar o desenvolvimento do país.

Entretanto, Rogermila Batista, aluno de Escola Justado Vieira, disse que queria estudar na escola privada, mas os pais não têm meios económicos para sustentar seus estudos. Se tivesse possibilidades financeiras não ia estudar nas escolas públicas, porque ficou sem estudar três anos.

Disse esperar que este ano letivo, 2021-2022, seja diferente dos últimos dois anos, porque não quer mais perder ano devido à questão de idade que não perdoa.

Lijanêa Alves Sá pediu o governo e o Presidente da República para prestarem um pouco mais de atenção às escolas públicas, porque se não vão deixar milhares de crianças fora do sistema do ensino.

Salvador Allende

O coordenador de estatística da Escola Salvador Allende, João Cornélio, informou que há alguns anos a escola tinha cerca de quatro mil alunos inscritos, mas este ano contamos apenas mil duzentos e setenta alunos.

Segundo ele, esta redução tem a ver com a greve no setor de ensino, porque nenhum pai vai querer que seu filho estude somente três ou cinco mês para transitar de classe.

Disse que a situação afetou bastante a escola, na medida em que tiveram que mandar nomes de alguns professores para o departamento do Ministério da Educação do Setor Autónomo de Bissau (SAB).

Por seu turno, Cesário Baio, um dos professores daquela escola unificada, asseverou que não tem grandes problemas como noutras, porque as aulas funcionam em pleno, apesar de falta de alunos.

No entanto, pediu o governo, no sentido de atender às reivindicações dos sindicatos do setor, de forma a salvar o presente ano letivo.

Retrocesso

O presidente da Confederação Nacional das Associações Estudantis da Guiné-Bissau (Conaeguib), Bacar Darame, disse que o governo é principal responsável pelo retrocesso que se verifica no setor do ensino guineense, porque não tem capacidade de travar as sucessivas ondas de greves decretados pelos professores.    

Neste ano letivo há algumas escolas que estão a funcionar plenamente, portanto o executivo deve aproveitar este ritmo para resolver as reivindicações dos sindicatos.

Disse que para a sua organização, mesmo que fosse uma criança que estivesse fora do sistema educativo, isso representaria uma perda grande para o país.

Darame mostrou que se esta situação continuar, significa que daqui em diante a Guiné-Bissau terá falta de novos quadros capazes de assegurar o desenvolvimento do país.

Segundo o líder estudantil, sempre os governantes dizem que a prioridade são dos setores sociais, saúde e educação, mas na prática isso não corresponde a verdade. Na sua opinião, quando o governo apresenta bolo orçamental sobre esses dois setores o mesmo devia refletir-se na melhoria das condições de infraestruturas de educação, assim como na melhoria do sistema do ensino em geral.

No entender de Darame, a greve está a ter impacto negativo nas escolas privadas por duas razões: primeira, provocou superlotação de escolas privadas sem mínimas condições e em segundo lugar tem a ver com o excesso de alunos nas salas de aula o que é pedagogicamente inadequado.

Alfredo Saminanco  

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