Mais de metade das crianças estão fora do sistema do ensino

O inspetor regional da Educação de Bafatá afirmou que mais de metade das crianças da região encontram-se fora do sistema do ensino, devido, sobretudo, aos usos e costumes tradicionais praticados na zona.

Em entrevista exclusiva ao jornal Nô Pintcha, Uri Cali Sané adiantou que, na zona leste, os menores quase não vão à escola. Segundo ele, pouco se valoriza o ensino, preferindo as pessoas dar trabalho às crianças para a obtenção de algum bem de imediato. “Vê-se crianças a venderem frutas, legumes e outros produtos para o sustento de famílias”, observou.

Como exemplo da desvalorização da escola, revelou que, numa população estimada em cerca de 250 mil habitantes e cuja maioria é jovem, apenas 60 mil crianças se encontram no sistema. Estão distribuídas em 209 escolas públicas, 26 privadas, 85 comunitárias e duas de autogestão (os liceus de Bafatá e de Bambadinca), sendo lecionadas por 1.170 professores. 

Para inverter a situação, Cali Sané propõe que o governo desencadeie campanhas de sensibilização nos órgãos de comunicação social e alargue as escolas até às tabancas mais longínquas. Os professores também têm de trabalhar consideravelmente para motivar as crianças, os próprios pais e encarregados de educação a mandarem os seus filhos para estudar “ao invés de mandá-los para o campo”.

Segundo as nossas fontes, o setor de Cossé lidera no que diz respeito às crianças fora do sistema de ensino. Aliás, só numa das aldeias, existem mais de 150 meninos que não vão à escola, sendo maioria das quais se encontra fora do país. 

 Ensino especial

Dados avançados pelo inspetor indicam que a Região de Bafatá conta com um total de 79 crianças com deficiência(surdas, mudas, cegas e outras)e que precisam de ensino especial. Há uma escola de referência na zona, que é a Amizade Guiné-Bissau-China, apoiada pela Plan Guiné-Bissau.

O problema é que, de acordo com aquele responsável, os professores que aí lecionam não são especialistas na matéria, não obstante receberem seminários de capacitação em cada ano para poder lidar com tais meninos. Disse que dos 30 professores, apenas cinco têm domínio de trabalhar com crianças deficientes.  

Em toda a região existem 20 escolas da Equip (Educação de Qualidade, Inclusiva e Participativa), nas quais aqueles alunos estão divididos. Os setores de Bafatá, Bambadinca e Ganado contam com quatro cada; cinco em Contuboel e três em Cossé.

O inspetor Uri Cali Sané informou, igualmente, que há crianças com deficiência nas comunidades e que não vão à escola, porque os pais não querem que elas sejam expostas.

Quando soube que existia uma criança em Sintchã Farba, arredores de Bafatá, impedida de ir à escola por ter apenas problemas de locomoção, o próprio inspetor deslocou-se para falar com os pais, sensibilizando-os a mudar de ideia e de comportamento, sabendo que aquilo de que o menino padecia é uma coisa natural, normal e nunca pode ser razão de excluir o seu portador do sistema de ensino. Pelo contrário, ele pode ser homem amanhã devido ao seu nível de escolaridade. “Isso surtiu efeito e a criança passou a ir para a escola”.

Disse que, às vezes, usam crianças com deficiência para sensibilizar as pessoas na comunidade, especialmente os seus próprios colegas, como forma de motivar os país a deixarem os seus filhos também ir à escola.

Daí, Uri Sané vê a necessário de se criar uma escola especial para as crianças com deficiência, à imagem do que acontece na Bengala Branca, permitindo, por isso, formar professores especializados na matéria.

Infelizmente, não foi possível ver nenhuma dessas crianças nem aos seus pais ou encarregados de educação para efeito de entrevista. O Nô Pintcha queria saber a real situação das mesmas, mas estando em tempo de férias a tentativa foi sem sucesso.

Apoios do Unicef

Entretanto, Uri Sané aproveitou para agradecer ao Unicef pelos apoios prestados à região, sobretudo desde ao surgimento da pandemia do coronavírus. Indicou que aquela Agência virada para a proteção das crianças da ONU formou, no ano passado, a 288 pessoas sobre as medidas de prevenção à Covid-19 e distribuiu materiais (Baldes, sabão, lixívia, máscaras) a quase todas as escolas da zona.

Neste momento, o Unicef apoia também a OGD – Organização Guineense de Desenvolvimento – que alberga 17 escolas, nomeadamente na área de Água, Higiene e Saneamento (ASH), permitindo à higienização das escolas, passar mensagens sobre a mutilação genital feminina, como as adolescentes podem lidar com períodos menstruais, enfim, como se pode cuidar da vida.

Para o ano letivo de 2020/21, inscreveram-se cerca de 1.485 alunos para o ensino pré-escolar, 12.711 no primeiro ciclo, 2.894 no segundo ciclo, 2.672 no terceiro ciclo, 1.951 no ensino secundário e 394 na escola formação, num total de 22.107 alunos.

Das cerca de 212 escola públicas da região, apenas nove não estão em condições de validar o presente ano lectivo, apesar de algumas o fazer parcialmente.

Texto e fotos: Ibraima Sori Baldé

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