Antiga direção e alguns funcionários de costas voltadas com a atual gerência

O fornecimento de energia elétrica aos citadinos de Bafatá poderá vir a sofrer uma paralisação se não forem tomadas medidas atempadas para sanear a crise interna que reina nos serviços da Delegacia Regional de Energia, onde a antiga direção, em colaboração com alguns antigos funcionários da casa, estão de costas voltadas com a atual gerência.

A crise, segundo apurou a reportagem do “Nô Pintcha”, deve-se a desentendimentos entre as partes, com o sindicato de base daquela instituição alinhado com alguns funcionários e a antiga direção para acusar a atual gerência de falta de abertura ao diálogo e de transparência na gestão dos recursos, bem como na tentiva de isolamento e exclusão da maioria dos funcionários, sobretudo daqueles que faziam parte da autogestão da central.

Esta situação, associada à falta de entendimento entre as partes, agravada ainda com a reivindicação do sindicato que, entre outras, exige o pagamento de nove (9) meses de salários em atraso referente ao ano de 2020 e 124 meses de salários que se vem arrastando desde 2006, bem como a efetivação de funcionários com mais de 20 anos de serviço na central. Toda esta situação poderá conduzir à paralisação da central eléctrica local que, até há bem pouco tempo, era administrada em regime de autogestão.

O “Nô Pintcha” constatou, igualmente, que o ambiente ora vivido na instituição está a criar um clima de desentendimento, descontentamento, bem como falta de colaboração da antiga gerência para apoiar a atual liderada, segundo informações, por pessoas que não são técnicos da área e não têm experiência em matéria de energia.

Tudo isso levou o Governo regional a criar, em colaboração com a atual direção da delegacia, uma comissão que integra diferentes pessoas, entre as quais técnicos de energia e consumidores. Esta comissão tem por missão apoiar os serviços de energia na identificação e localização de clientes consumidores para verificar se são detentores de contrato de fornecimento legalmente estabelecidos.

Essa verificação pode vir a ajudar na busca de soluções para garantir a operacionalidade da central.

A criação da referida comissão divide as opiniões dos citadinos de Bafatá, alguns consideram boa a iniciativa porque vai permitir detetar as ilegalidades existentes entre os consumidores; outros acham que a institucionalização desta comissão visa intimidar os clientes consumidores dada a forma como vem atuando.

Depoimentos

Entretanto, o “Nô Pintcha” ouviu as diferentes partes (sindicato, antiga e atual direções, comissão e consumidores), tendo cada uma dado a sua versão conforme o registo que se segue.

Sindicato de base

Relativamente ao sindicato de base, as informações apuradas dão conta de que a atual gerência da Delegacia Regional de Energia, após ter assumido funções, em vez de pautar pelo diálogo e aproximação, optou por isolar, excluir e, até, exonerar alguns técnicos com larga experiência, o que poderá conduzir o funcionamento da central ao colapso a qualquer momento, disse o porta-voz do sinicato, Adulai Candé que é, igualmente, diretor técnico da central e responsável pela manutenção e reparação das centrais provinciais do país.

Adulai Candé disse que a reinvindicação do sindicato de base abrange seis pontos, nomeadamente o pagamento de nove meses de salário em atraso referente ao ano 2020; 124 meses de salários correspondentes aos anos entre 2006 e 2014; efetivação na Função Pública dos trabalhadores com mais de 20 anos de carreira; melhoria de condições laborais; transparência na gestão dos assuntos administrativos do centro e retoma do regime de autogestão da central.

Aliás, Candé disse que este foi motivo da entrega do pré-aviso de greve que o sindicato apresentou à gerência em dezembro findo e que motivou uma reunião de negociação realizada no dia 19 do mesmo mês, que envolveu o sindicato de base, delegação do Ministério dos Recursos Naturais e Energia, delegacias provincial e regional de Energia de Bafatá.

Memorando de entendimento

Esta reunião culminou com a assinatura de um memorando de entendimento a que o “Nô Pintcha” teve acesso, no qual o Ministério dos Recursos Naturais e Energia prometeu, na altura, envidar esforços para, até 23 de dezembro de 2020, pagar aos trabalhadores dois dos nove meses de salários em atraso. Comprometeu-se, igualmente, a usar toda a sua influência junto do Ministério das Finanças para que essa entidade ministerial pague as guias de remessa relativas às faturações de energia elétrica consumida pelas instituições públicas na região.

Por seu lado, a Delegacia Regional de Energia irá providenciar, junto dos seus parceiros, no sentido de obter um valor monetário destinado ao pagamento de um mês de salário aos trabalhadores e disponibilizar informações requeridas pelos trabalhadores.

De igual modo, a mesma delegacia regional compromete-se a fornecer mensalmente dados de produção energética à Delegacia Provincial de Energia para efeitos de elaboração do relatório anual.

Em consequência, o sindicato comprometeu-se a suspender a greve que estava em curso, dando o benefício de dúvida à entidade patronal. Contudo, acrescenta que não descarta a possibilidade de retomar a paralisação a partir do dia 24 de dezembro, caso a gerência não satisfizesse a sua obrigação, o que veio a acontecer. Tendo em conta a conjuntura que o país vive, o sindicato protelou as restantes reivindicações para momento oportuno.

O porta-voz do sindicato disse que nada desse memorando foi cumprido, tanto da parte do ministério como da delegacia regional, o que deixa os trabalhadores indignados, agravada ainda por a gerência estar a criar outras situações que apenas promovem o ódio e revolta, sublinhando como exemplo o isolamento e exclusão de todos os técnicos que faziam parte da antiga direção.

E mais: a atual direção não colabora com a Delegacia Provincial e nem consulta ou presta informações a esta sobre o andamento dos serviços de energia regional.

Disse que durante a vigência da atual gerência alturas em que o fornecimento de energia à cidade esteve paralisada devido à falta de combustível  provocada por má gestão dos recursos.

Adulai Candé disse que o mais lamentável de tudo isto é que, para além dos salários reclamados pelo sindicato, muitos funcionários recebem um salário miserável, vergonhoso mesmo, ou seja, variam entre 10,15 a 20 mil francos CFA.

Dívida

O presidente do sindicato de base de energia disse que a atual gerência está a afundar a central, apontando para uma dívida atual de cerca de 80 milhões num espaço de menos de 8 meses, onde o consumo ultrapassa de longe a produção, ou seja, gasta mensalmente 42.900 litros de gasóleo correspondentes a 20.000.000 de francos CFA ao preço da EAGB. No entanto, fatura mensalmente entre 4 a 5 milhões, o que implica um défice de produção na ordem de 15.000.000 francos de CFA.

Perante esta situação, o porta-voz pela a atual gerência a ter coragem e demitir-se, antes de afundar mais a central e acarretar o Governo a mais custos.

Adulai Candé disse que a equipa de autogestão que geriu a central nos últimos anos e até junho de 2020, conseguiu assegurar combustivel para fornecimento de energia aos clientes e pagar salários aos funcionários graças ao contrato que tinha com a entidade que fornecia mensalmente à central cerca de 49 mil litros de combustível. Mas a atual gerência suspendeu esse contrato.

Patronato

Por seu lado, o administrador da Delegacia Regional da Energia, Samba Buaró, abordado pela nossa reportagem disse que a nova direção assumiu a gestão dos serviços da energia em julho de 2020. Disse que, após ela entrar em funções, procedeu ao levantamento dos recursos humanos para saber quem são os funcionários, onde cada trabalhador se encontra colocado e o que faz, tendo elaborado um banco de dados para permitir uma melhor planificação dos serviços.

Paralelamente a esta medida, realizou-se também um pequeno inquérito dirigido aos consumidores existentes e apurou-se que a nivel da cidade há cerca de 700 clientes consumidores, mas muitos deles em situação irregular. E os geradores que a central dispõe estão aquém das necessidades em relação ao pagamento de clientes para corresponder com o que consomem em termos de combustível.

Daí que a nova gerência tenha concluído que havia necessidade de reorganizar os serviços a fim de permitir uma gestão mais consentânea com gastos em termos de combustível e outras despesas da delegacia.

De acordo com Samba Buaró, recebem mensalmente uma média de 38 a 39 mil litros, correspondente a cerca de 23 a 24 milhões de francos CFA, mas a faturação mensal oscila entre 16 e 17 milhões de francos CFA, o que significa que há um enorme défice entre receita e despesa.

Foi detetado também uma enorme irregularidade no consumo de energia na cidade, em que há muitos clientes que consomem energia mas não estão registados nos serviços, provocando um grande prejuízo à central e sem retorno.

O administrador disse que foi nesta base que os serviços da delegacia, em concertação com o governo regional, decidiu instituir uma comissão para ajudar a detetar as irregularidades, identificar os diferentes clientes consumidores, em que condições beneficiam da corrente eléctrica; se têm contrato e pagam regularmente as faturas e como pagam para, assim, se organizar melhor e tomar decisões sobre a política energética na região.

Por outro lado informou que há problemas de falta de liquidação das faturas pelo consumo de energia por parte de instituições públicas na região, dívida que ronda cerca de 73 milhões de FCFA que, a ser paga, vai permitir à delegacia recuperar e garantir o funcionamento da central.

O administrador disse que, no início de dezembro findo e com apoio do ministro do Interior, Botché Candé, a delegacia recebeu uma quantidade de 39 mil litros de gasóleo, ajuda que permitiu o funcionamento da central no período da quadra festiva e, assim, poder cobrar as dívidas de consumidores.

Auscultações

Na perspetiva de identificar e normalizar a situação irregular de consumidores que causam prejuízos à central, o administrador disse que, no âmbito da comissão criada, abriram desde o passado dia 6 de janeiro do ano em curso um espaço de auscultação de clientes.

Quando se identifica um cliente em situação de incumprimento, é notificado para vir à delegacia e é-lhe solicitada a apresentação do documento de contrato que o vincula aos serviços de energia e o comprovativo do pagamento das faturas de consumo referentes aos últimos 11 meses. Se apresentar os comprovativos que lhe forem pedidos, fica livre de qualquer coima. Caso não apresente comprovativos do pagamento e tenha cometido alguma infracção, é-lhe aplicada uma multa de 105.000 francos CFA e, após a sua liquidação, é obrigado a declarar se quer continuar a beneficiar do consumo de energia.

Relativamente à colaboração com a antiga direção, Samba Buaró disse que são funcionários da delegacia e que estão a passar progressivamente algumas informações, embora não como desejaria a atual gerência.

Disse que a delegacia regional conta com cerca de 64 a 70 funcionários, a maioria sem vínculo à Função Pública e recebem mediante receitas internas da delegacia. Por isso, advertiram os mesmos que ameaçam paralisar os serviços de que devem lembrar que os seus salários dependem de receitas internas e não da Função Pública. Não produzir implica não receber vencimento, rematou o administrador.

Também, o administrador disse que a atual gerência conseguiu pagar até agora três dos sete meses desde que assumiu funções em julho de 2020 e lamentou o comportamento dos funcionários em que só agora entrar com ameaças de paralisação exigindo 124 meses, 9 meses, o que não fez com anterior gestão.

Intimidação de clientes

O administrador negou informações veiculadas em como a delegacia anda a intimidar os consumidores. Esclareceu que apenas foi criada uma comissão para ajudar a detetar clientes legais e não legais.

Portanto, ninguém foi intimidado, antes pelo contrário, os clientes são convidados a colaborar pois, ao fim e ao cabo, o benefício é de todos, tanto de consumidores como dos serviços de energia.

Sobre o banco de dados de registo de funcionários que a nova direção quer constituir, não significa em momento algum despedir ninguém, mas sim organizar os recursos humanos. O resto cabe a quem de direito tomar a devida decisão, concluiu o administrador. Comissão

Bubacar Candé, vulgo Bubacar Sinho, adjunto do delegado da Delegacia Regional de Viação de Bafatá, disse que esta comissão vem no sentido de ajudar não só a delegacia mas também os próprios consumidores na resolução dos problemas de fornecimento de energia à cidade.

Ele acrescentou que a comissão, até ao momento desta entrevista, já descobriu mais de 100 consumidores em situação ilegal. Mas que não quer aprofundar porque haverá um relatório que vai espelhar todas as informações, tanto do consumo diário real da central em termos de combustível, a capacidade da rede, os clientes legais e ilegais assim como a faturação mensal real da delegacia, concluiu Bubacar Candé.

Consumidores

Em relação aos consumidores a nossa reportagem abordou Issa Djau, comerciante e consumidor, que disse ter ficado surpreendido com a comissão que esteve em sua casa acusando-lhe de ter uma dívida de 12 meses, o que não corresponde à verdade. Disse que nunca ficou a dever luz e que paga o seu consumo através da conta bancária indicada pela delegacia e entrega o talhão à caixa da delegacia. Quando foi notificado pela comissão foi à delegacia e na caixa dos serviços de energia encontraram apenas quatro talões, tendo sido obrigado a pagar o montante de cerca de 280 mil francos CFA respeitantes a oito meses de consumo.

Mas Issa Djau disse que nunca se atrasou no pagamento do seu consumo, afirmando que apenas deixou perder os respetivos recibos de liquidação das suas faturas. Perante esta situação disse que a comissão deve ter mais cautela na abordagem que faz aos clientes.

Texto e fotos: Djuldé Djaló

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